O Fear Factory é uma daquelas bandas que surgem assim, once in a lifetime, tamanha a sua singularidade e criatividade, que os colocaram entre as grandes bandas de todos os tempos, graças a capacidade de reunir dentro de um mesmo som, influências de Death metal, Thrash Metal e Industrial, experimentos que influenciam bandas e estilos até hoje. Formado em 1989 por Burton C Bell, Raymond Herrera, e o lendário guitarrista Dino Cazares, inicialmente sob o nome de Uncreation, praticavam um Death Metal muito próximo ao Grindcore, com toques de música Industrial européia, inclusive gerando a característica mais marcante da banda: a mescla entre os vocais guturais e limpos dentro de uma mesma música, algo a ser muito utilizado pelas bandas de MeloDeath e Metalcore alguns anos depois.

Com os lançamentos do debut “Soul Of A New Machine” e o clássico absoluto “Demanufacture”, o Fear Factory conseguiu atrair atenção para si em plena década de 90, com um som extremo e bem mais pesado que o Grunge em alta na época, que viria a ser praticado alguns anos depois em excesso na explosão do movimento New Metal, nos Estados Unidos, onde 90% das bandas tinham uma sonoridade muito parecida com a da trupe de Dino Cazares. O álbum seguinte, “Obsolete” foi o primeiro via Roadrunner Records e o primeiro a contar com um baixista na formação, abrindo espaço para Dino Cazares usar a guitarra de 7 cordas, orientando o som mais para o lado Progressivo e Groove. “Digimortal”, o próximo lançamento, foi o último antes do hiato que a banda esteve até 2002, sem o guitarrista, visto que o clima dentro da banda não foi dos melhores. Nesse período, eles chegaram a lançar os álbuns “Archetype” e “Transgression”.

Em 2009, porém, Burton C Bell e Dino Cazares anunciam que teriam reatado a amizade, resolvendo seus problemas, de forma que se envolveriam em um novo projeto pela primeira vez em quase 8 anos, porém, dessa vez, sem Raymond Herrera e Christian Olde Wombers, gerando problemas na justiça, visto que as duas partes alegam serem donas do nome “Fear Factory”.

Em todo caso, e apesar de todos os problemas, “Mechanize” foi lançado sob o nome da própria banda, com Byron Stroud e Gene Hoglan completando o line-up ao lado de Bell e Cazares. Produzido pela própria banda em conjunto com Rhye Fulber, o álbum chegou ao mercado no dia 5 de fevereiro, trazendo a clássica sonoridade que os fãs tanto aguardavam, principalmente com a arte gráfica no mesmo estilo.

A faixa título abre o álbum em meio a sons industriais (literalmente), dando início a pedrada de riffs ultra pesados e mecânicos, quase como se tudo tivesse sido programado por uma inteligência artificial, deixando claro de uma vez por todas qual é a fonte da qual bandas como o Meshuggah beberam por anos. “Industrial Discipline”, com o seu óbvio título é quase que um pouco mais melódica e uma sonoridade meio européia, regada a boas doses de Sybreed e congêneres, diferentemente da quebradeira de “Fear Campaign”, com seu tempo esquisito e as batidas secas guiando a música. “Powershifter” foi o primeiro single do álbum e apesar de dar continuidade ao massacre sonoro e pesado, tem um dos melhores refrões da carreira dos americanos e com certeza foi uma escolha acertada para demonstrar o novo Fear Factory, fazendo a música que todos os fãs esperavam, assim como as seguintes “Christplotation”, “Oxidizer” e “Controlled Demolition” (os títulos estão geniais, a propósito), com seus riffs quebrados, agressivos e artificiais. “Designing The Enemy” se destaca um pouco no meio do álbum pelo seu clima um pouco mais soturno e descambando mais para o lado Industrial da coisa, confuso e perturbador, como se estivesse flutuando em algum metal líquido, ou algo do tipo. A totalmente non-sense “Metallic Division” serve basicamente como um interlúdio, ou talvez um prólogo sem ligação para “Final Exit” e o seu começo soturno (parece saído de um filme de ficção da década de 80) que fazem dela não apenas a mais interessante do álbum (ao lado de “Powershifter”), mas de toda a carreira da banda, incluindo os álbuns clássicos. Tudo isso graças a performance de Burton C Bell, utilizando a sua voz limpa como a muito não se via.  A sua variedade instrumental e vocal são essenciais para que os 8 minutos passem voando (5, na verdade, o seu final se resume a um som ambiente sinistro).

“Mechanize” é um álbum tipicamente Fear Factory, e todo esse tempo parado não parece ter enferrujado nem os músicos e nem a sua capacidade de fazer músicas juntos. Muito pelo contrário, aliás, como uma máquina viva, eles parecem mais equilibrados, criativos e dinâmicos, quebrando barreiras de um estilo que eles mesmo criaram e ajudaram a desenvolver.

01. Mechanize
02. Industrial Discipline
03. Fear Campaign
04. Powershifter
05. Christpolation
06. Oxidizer
07. Controlled Demolition
08. Designing The Enemy
09. Metallic Division
10. Final Exit

Nota 9

Bons sonhos

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