Fundado em 1989, o Dark Tranquillity é a banda que mais tempo está na ativa da famigerada cena de Melodic Death Metal sueca, sendo os alicerces de um movimento e uma vertente musical com o passar dos anos. A complexidade técnica e melódica da banda talvez tenha sido o principal fator que elevou-a ao status que tem hoje no underground Metal, uma das mais cultuadas e unanimidade quando o assunto é Metal Sueco. Desde o início da banda, a mescla entre música extrema, passagens instrumentais complexas/progressivas e melodias mais soft, aliadas às letras ácidas de Mikael Stanne e Niklas Sundin, atraiu a atenção do cenário e, junto com At The Gates e In Flames (posteriormente), moldaram uma das divisões do Death Metal mais interessantes e possivelmente comerciais. Com trabalhos que foram sucessos de crítica e público, “Projector” foi nomeado para o Grammy sueco, enquanto os subseqüentes “Haven”, “Damage Done” e “Character” foram passos importantíssimos, uma evolução natural da banda, experimentais e com identidade na medida certa.

“Fiction”, lançado em 2007 estabeleceu o Dark Tranquillity como membro do panteão do Heavy Metal, afinal, foi o ponto em que o equilíbrio lógico entre peso. técnica e melodia foi alcançado, assim como o desenvolvimento dos conceitos líricos (a característica mais interessante deles, diga-se de passagem) e a produção. Sendo assim, ficava a dúvida: o próximo álbum vai manter a qualidade? A linha musical continuará inalterada ou continuarão as sutis experimentações, feitas desde o início da carreira?

“We Are The Void” foi lançado em 24 de fevereiro deste ano e, se não demonstrou uma mudança drástica na sonoridade da banda (como ocorreu no período Projector-Haven-Damage Done), acaba soando como um irmão mais velho, mais experiente e maduro do que o álbum anterior, mantendo a qualidade e a identidade da banda, acima de tudo (como anunciado pela própria banda, é intencionalmente a parte 2 de “Fiction”). Produzido pela própria banda, em seu estúdio na Suécia, as músicas são tão polidas (em contrate à sujeira que predominava no estilo anteriormente) e tão bem mixadas/masterizadas, que acabam não devendo em nada para os outros álbuns, que recebiam a assinatura registrada do lendário Fredrik Nordstrom.

O álbum estranhamente abre com “Shadow In Our Blood” e as suas muitas camadas de instrumentos, deixando óbvio já, uma tendência que veremos percorrer todo o álbum: como o teclado e os efeitos eletrônicos foram colocados quase a frente na mixagem final e a remodelagem que a voz de Mikael Stanne recebeu, mais rasgada e menos gutural, além de que, claramente podemos perceber uma timbragem diferente nos instrumentos, a própria bateria está bem mais seca, assim como a distorção das guitarras. “Dream Oblivion” foi uma das primeiras a serem divulgadas antes do lançamento do álbum e parecem um híbrido entre “Projector” e “Character”, uma música com um clima soturno e calcada no mid-tempo. Pianinhos eletrônicos dão ínicio a “The Fatalist” com seu riff quase Prog Metal, que cai depois em um típico MeloDeath, assim como “In My Abscence”, que tem a complexidade clássica do Dark Tranquillity e aquele refrão cadenciado e até mesmo melodioso, demonstrando como a voz de Stanne mudou principalmente nessa parte. “The Grandest Accusation” tem um quê da fase Haven, uma música mais cadenciada, soturna e cheia de efeitos, e uma das letras mais legais não apenas do álbum, mas de toda a carreira (é a primeira do álbum que Stanne canta co ma voz limpa, e mesmo essa, as diferenças são notáveis).

A música seguinte, “At The Point Of Ignition” também havia sido liberada no myspace, e me gerou um certo desconforto: a música é tipicamente Dark Tranquillity, mas a sensação que fica é que ela não se encaixaria na proposta de nenhum dos álbuns anteriores, sendo esse talvez a característica mais admirável dos suecos, que conseguem mudar o seu som em pontos que não destruam sua identidade, mas que tenham diferenças latentes entre si, como demonstrado também em “Her Silent Language”, possivelmente a música mais “levinha” do álbum, bem melódica, talvez diferente de tudo que a banda já tenha feito, com diversas mudanças de andamento nos seus 3 minutos e meio de duração. “Arkhangelsk” tem um acento bem do Fiction, com um clima pesado, gélido, quase Black Metal, onde o piano faz uma diferença inacreditável, enquanto a faixa-título (em partes), “I Am The Void” tem uma sonoridade quase Thrash Metal, onde Anders Jivarp volta a utilizar os malditos blastbeats (ainda que por alguns segundos) e os solos de guitarra são extremamente bem construídos, como na seguinte, “Surface The Infinite” (título genial), aí sim, com blastbeats a dar com rodo, uma música rápida a lá Character e técnica ao mesmo modo. A versão regular do álbum se encerra com “Iridium”, e assim como “The Mundane And The Magic”, se divide entre o Death e o Doom Metal, uma música que chega a ser triste, onde fica a impressão de que Mikael Stanne guardou toda a sua dramaticidade para essa música, extremamente densa e uma das melhores do álbum. O título dela me deixa intrigado assim como fiquei com “Icipher” do álbum anterior. Qual seria o verdadeiro significado? Bom, a versão que eu tenho aqui é a limitada, com duas músicas a mais, a saber “Star Of Nothingness”, uma instrumental bem calminha e soturna, ao estilo das bônus dos outros álbuns, e “To Where Fires Cannot Feed”, uma música bem Death Metal e passagens instrumentais bem sacadas. Até hoje não entendo qual o sentido de não colocar uma ou duas músicas a mais no álbum, mas ok.

“We Are The Void” é mais um marco na carreira da banda, na minha opinião, sem falha alguma por esses 20 anos que ela está ativa. A capacidade de metamorfose e da identidade que a banda tem é algo que deve ser admirado por várias outras e, talvez colocar o piano a frente dos instrumentos, sem diminuir o peso foram a grande jogada nesse trabalho, assim como a mudança do jeito de cantar de Mikael Stanne, só resta saber se elas serão mantidas nos próximos lançamentos, ou, o que é mais provável, quais mudanças testemunharemos.

01.Shadow In Our Blood
02. Dream Oblivion
03. The Fatalist
04. In My Absence
05. The Grandest Accusation
06. At the Point of Ignition
07. Her Silent Language
08. Arkhangelsk
09. I Am the Void
10. Surface the Infinite
11. Iridium
12. Star of Nothingness
13. To Where Fires Cannot Feed

Nota: 10

Bons sonhos

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