Diz o ditado popular que a linha que separa a genialidade da insanidade é um tanto quanto tênue e muitas vezes é uma questão de tempo para que se atravesse essa linha ou fique em cima dela, com um pé de cada lado. Daniel Gildenlow e o Pain Of Salvation são um dos maiores ícones do Rock/Metal Progressivo atualmente, alavancados pelos sucessos conceituais de “The Perfect Element” e “BE”, possivelmente dois grandes marcos do Progressivo no século XXI, que trazem toda uma gama de influências e ótimas idéias desenvolvidas em seu som. Após o estrondoroso sucesso de “BE”, onde a banda demonstrava ter chegado ao seu ápice progressivo, um álbum que envolvia filosofia, religião, humanidade e o fim do mundo, o lançamento do subseqüente “Scarsick” em 2007, chocou muita gente pelos experimentalismos e a dinâmica abordagem que foi dado a sonoridade. Considerado a segunda parte do álbum “The Perfect Element”, nunca havia se visto o Pain of Salvation tocando de forma tão pesada, direta, crua, incluindo ao seu som Disco Music, Surf Music, Rap e até mesmo New Metal, o que acabou dividindo a opinião dos fãs, sendo o mais polêmico da sua carreira. Nesse meio tempo, a banda passou por uma drástica mudança do line-up: Kristoffer Gildenlow (irmão de Daniel) já havia abandonado o barco após a turnê do “BE” e o baterista de longa data Johan Langell saiu antes mesmo do início das gravações do EP “Linoleum”, que anteciparam o lançamento deste sétimo full-length, deixando Johan Hallgren, Frederik Hermansson e Daniel Gildenlow para continuar a banda (quem não se lembra dos dias que o site oficial deles ficou com um “the end?” escrito? Isso foi caótico). Porém, tudo deu certo e Léo Margarit foi recrutado para assumir as baquetas e o próprio Gildenlow tocou as linhas de baixo, enquanto um membro efetivo não é anunciado.

“Road Salt” inicialmente seria um álbum duplo, mas foi decidido pela própria banda que o mesmo deveria ser dividido em dois, a primeira, intitulada “Ivory”, lançada agora em 17 de Maio, pela legendária InsideOut, enquanto a outra deverá chegar ao mercado ainda em Outubro deste ano. Mas tudo bem, vocês podem estar se perguntando: E o que tem a ver a genialidade e a insanidade citadas no começo do review?

Bom, os trabalhos do PoS sempre beiraram a genialidade dos seus músicos, com obras beirando a perfeição, tão desenvolvidas que chegam a megalomania. Porém, em “Road Salt I: Ivory” é como se a banda desse uma guinada de 180°, reformulado o seu som de forma tão abrupta que pode chocar muito dos desavisados. Tanto as faixas no EP, quanto a faixa-título apresentada no Eurovision demonstravam que a banda até tentava uma sonoridade diferente, mas ainda tinha os pés fincados nas suas próprias raízes e identidade construída ao longo destes anos.

“No Way”, contudo, já abre o álbum com pé direito na porta e mão esquerda na cara do ouvinte mais descuidado. Uma levada meio jazzística e com várias mudanças de andamento, a característica mais marcante desta música (e que percorre em vários momentos do álbum) é que não é o vocal quem acompanha o instrumental, mas o inverso, como se as letras e as linhas tivessem sido escritas antes da música em si. Em seguida, “She Likes To Hide” é uma balada conduzida por uma guitarrinha mezzo-distorcida lá no fundo, demonstrando de vez que a verdadeira intenção deste álbum é soar bem soft e até mesmo um tanto quanto atmosférico (as músicas que realmente tem um “peso” considerável estão no final do álbum), como podemos ver também em “Sisters”, onde um piano cria um clima bem legal (apesar de carregado) com uma das letras mais legais do álbum e Gildenlöw demonstra a grande versatilidade na voz, que não é novidade prá ninguém. “Of Dust” vem em seguida, com um direcionamento meio… gregoriano? Chega a lembrar um pouco “Nauticus”, do álbum BE, com direito a narrações e tudo, nos seus curtíssimos 2 minutos e meio de música, chegando em “Tell Me You Don’t Know”, talvez uma das músicas mais “felizes” da banda, bem dançante e meio bluesy, uma pena que é tão curta.

A primeira coisa que me veio a cabeça quando ouvi “Sleeping Under The Stars”  foram as trilhas sonoras daqueles jogos épicos de RPG, tipo Final Fantasy, já que ela tem um clima meio operístico, medieval, folk, que chega a ser difícil classificar exatamente, mas é uma das mais interessantes, ainda mais com o tema, que parece tratar sobre prostituição ou algo do gênero. “Darkness Of Mine” resgata novamente o clima mais pesado e soturno, algo bem obscuro, remetendo as próprias músicas que bandas setentistas faziam nesse molde, enquanto “Linoleum” talvez seja a única realmente com um riff de guitarra (e que cama o órgão faz nessa música, pelamordedeus) e foi a faixa-título do EP que precedeu o álbum, sendo o mais próximo do Pain Of Salvation da década de 90 que podemos encontrar aqui (calcule o que é isso).  A 9º música, “Curiosity” tem um clima inglês que chega quase a irritar, apesar de não ser exatamente, ela parece ter umas nuances de Muse, aqui e acolá, e umas pitadas de Rock britânico, o que talvez também possa ser levemente identificado em “Where It Hurts”, uma música extremamente atmosférica e interpretativa (aliás, tem um riff ali que lembra MUITO uma música do Black Sabbath, não? Ou será que não é do Sabbath? Mas eu já ouvi em algum lugar). A faixa-título, que tinha me feito torcer o nariz na apresentação do Eurovision, é uma das minhas baladas favoritas da banda agora, todo o clima e, principalmente, a letra são muito interessantes, grudando logo de cara. O álbum fecha com “Innocence”, em todos os seus 7 minutos, inicia meio esquisito, já que o riff parece meio Grunge/Post-Grunge, principalmente pelo efeito escolhido para a guitarra. Várias partes dessa música (da sua metade em diante, principalmente) remetem a sonoridade do “The Perfect Element I”, em seus momentos mais progressivos e a letra parece cuspida desordenadamente, culminando em um desfecho praticamente cacofônico e desconexo.

Resta aí a dúvida: Seria essa a base para a parte dois do álbum? Ela seguirá a mesma linha, mais direta? Ou o álbum foi dividido para que fossem sonoramente distintas entre si também? Só podemos esperar até Outubro para termos estas perguntas sanadas, por enquanto, ouvimos a parte um, que continua a manter um padrão de excelência inacreditável para uma banda relativamente nova, que mesmo se remodelando e experimentando sons novos não perde a sua essência e tem perfeita noção do que quer fazer, como fazer e quando fazer.

Toma aí, mais uma masterpiece do Progressivo

01. No Way
02. She Likes To Hide
03. Sisters
04. Of Dust
05. Tell Me You Don’t Know
06. Sleeping Under The Stars
07. Darkness Of Mine
08. Linoleum
09. Curiosity
10. Where It Hurts
11. Road Salt
12. Innocence

Nota 10

Bons sonhos, crianças

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