Um dos três grandes nomes do Doom Metal inglês do final dos anos 80 e começo dos 90, junto com My Dying Bride e Paradise Lost, pode-se dizer que o Anathema foi aquele que mais modificou o seu som com o passar do tempo, metamorfoseando do clássico Death/Doom do início de carreira para algo bem mais soft, progressivo e atmosférico. Desde a época sob o nome de Pagan Angel, ainda, lá pelos idos de 1991, quando anotou o nome de Anathema (do grego, seria algo que trabalha dedicadamente para o mal) e estreou com o álbum “Serenades”, chegando a excursionar com o (pasmem) Cannibal Corpse e emplacar um vídeo de “Sweet Tears” na programação da MTV. Após a saída de Darren White, Vincent Cavanagh, até então guitarrista, assumiu os vocais, sendo esse o fator crucial para o novo direcionamento que a banda tomaria nos próximos anos, principalmente após o álbum “Eternity”, uma transgressão do Doom Metal inglês clássico para os campos do Atmospheric Rock, um som muito mais focado no ambiente, em viagens translúcidas e coisas do gênero.

A consolidação desse novo estilo ocorreu com o lançamento dos subseqüentes “Alternative 4” e “Judgement”, que focavam cada vez mais em experimentalismos e músicas lentas/calmas. Apesar da nova direção musical, pode-se notar até hoje, tanto pelos conceitos líricos ou pelas artes gráficas (verdadeiras obras), que a essência lá do início da banda continua praticamente intacta: o sentimento de desespero, depressão, muito bem demonstrado pelas interpretações de Vincent e os efeitos eletrônicos e de teclado, que tomaram cada vez mais importância nos álbuns “A Fine Day To Exit” , “A Natural Disaster” e, o mais recente, “Everything”, fazendo com que os mesmos fossem comparados a Pink Floyd e, até mesmo, o Radiohead.

Após um certo período de conturbação com a troca de gravadoras, alguns membros voltaram e estabilizaram o line-up com os três irmãos Cavanagh (Vincent, Daniel, Jamie), acompanhados do tecladista Lee Smith e o baterista Lee Douglas, e anunciaram o lançamento do seu mais novo trabalho “We’re Here Because We’re Here” (título genial, diga-se de passagem).

O oitavo da banda, produzido por Steven Wilson (Porcupine Tree), o álbum dá continuidade a sonoridade mais atmosférica já praticada pela banda, sem muitas mudanças bruscas com relação aos anteriores, até mesmo porque, após a audição, fica a incomoda impressão de que todas as músicas estão interligadas, como se elas não terminassem de fato, mas o seu final está conectado com o início da seguinte.

“Thin Air” abre o álbum e chega a ser até mesmo um tanto quanto “pesada” (calcule), principalmente devido ao fato de que ela vai crescendo ao longo dos seus 6 minutos de duração, terminando completamente diferente de como começou, chegando então em “SummerNight Horizon” que consegue ser ainda mais pesada que a faixa de abertura, remetendo um pouco ao próprio passado Doom da banda. Em seguida, “Dreaming Light” chega quase a ser uma balada pop (lembra um pouco bandas japonesas até) e até mesmo bem básica, conduzida no piano, com um refrão muito bem feito (um dos mais legais do álbum) e pegajoso. A quarta e quinta música, “Everything” e “Angels Walk Among Us” foram umas das primeiras músicas a serem liberadas no myspace, quando o álbum ainda se chamaria “Horizons”. A primeira é novamente conduzida no esquema piano-bateria-barulhinhos, cria o clima perfeito para a performance vocal de Vincent Cavanagh, e uma voz feminina ao fundo que eu sinceramente não sei de quem é, algo realmente atmosférico e até mesmo viajante, enquanto a outra tem a participação de Ville Valo, do HIM, e acaba agregando uma leve e quase imperceptível influencia deles, principalmente pela voz sussurrante e marcante do sujeito, enquanto o instrumental passa uma sensação de tranqüilidade inacreditável. “Presence”, em seguida é apenas um interlúdio, com aquele instrumental típico de apresentações de PowerPoint com uma narração que fica repetindo “Life is eternal” em eco, e, apesar de básica, o seu espaço no álbum foi muito bem pensado, pois ela abre espaço para a entrada de “A Simple Mistake”, uma balada bem progressiva que tem uma das letras mais interessantes da carreira do Anathema, ao longo dos seus oito minutos, terminando em um instrumental conturbado e até mesmo caótico, mas com um resultado incrível. A oitava música “Get Off, Get Out” parece agregar uma certa sonoridade do Rock inglês atual, um que de Muse e até mesmo de Radiohead ou Coldplay (nos seus momentos bons), tornando-se uma música até mesmo meio que deslocada nos seus experimentalismos, bem diferente das duas que encerram o álbum, “Universal” e “Hindsight”. Com seus 7 minutos, podemos dizer que a primeira é o equilíbrio entre Rock Progressivo e Atmospheric Rock, a letra cantada de forma lenta, introspectiva, tendo como base uma pulsação (seriam batidas de coração?) e ao que me parece, um quarteto de cordas, que faz um crescendo para a música até a sua metade, quando ela muda completamente e torna-se instrumental até o fim, pesada, levada no piano, que guia a música até mesmo nas partes mais cacofônicas. O álbum se encerra com “Hindsight”, com todos os seus 8 minutos de duração, iniciados com freqüências de rádio e uma narração, e a música, é um exemplo de instrumental, visto que pode ser percebida uma evolução clara e objetiva até o seu final.

Evidente, o Anathema provavelmente não tenha uma sonoridade de fácil absorção para a grande maioria, a não ser que já se esteja acostumado a bandas semelhantes. Porém, o trabalho deles é muitíssimo interessante e ótimo prá se ouvir em momentos de brisa total, de preferência como background para alguma coisa que se esteja fazendo no momento.

1. Thin Air
2. Summernight Horizon
3. Dreaming Light
4. Everything
5. Angels Walk Among Us
6. Presence
7. A Simple Mistake
8. Get Off, Get Out
9. Universal
10. Hindsight

Nota: 9

Bons sonhos, crianças.

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